Hoje finalizamos a série de textos sobre o Curso de Ética, ministrado pelo prof.º Clóvis de Barros Filho. Repito que o curso já não se encontra disponível em sua modalidade original, mas pode ser facilmente achado no Youtube. Partamos então em direção a Nietzche e seu Eterno Retorno.
O princípio que precisa se esclarecer para entendermos essa ideia de eterno retorno é sua finalidade. A grande pergunta desse curso e de boa parte das pessoas é “qual vida vale a pena ser vivida?”. O mundo descreve uma infinita quantidade de respostas, parâmetros. Cada grupo possui uma ideia de momento ideal para se viver. Para os marxistas é a sociedade sem classes, para os liberais é Estado com menos intervenções. Para os cristãos é a vida que se aproxima da vida de Cristo, para os pagãos é a vida que se aproxima da natureza. E por aí vai.
Concluímos que o eterno retorno é uma teoria sobre um processo seletivo. Um processo seletivo dos momentos que você deseja reviver, que você está disposto a repetir. São seus momentos desejados.
“Se em tudo aquilo que queres fazer, começares a te perguntar ‘será que quero mesmo faze-lo um número infinito de vezes?’, isso será para ti o centro de gravidade mais sólido”.
Friedrich Nietzche
Agora começamos a pensar sobre o critério definido pelo autor para essa seleção. A vida a ser vivida não é aquela em que você faz coisas pela simples vontade de faze-las, mas faz coisas que você quer um número incontáveis de vezes. Mesmo que esse objetivo seja inalcançável, é o desejo pela eternidade daquele instante que sustenta o retorno. Nietzche diz que toda alegria busca a eternidade, mas a eternidade não possibilita retorno, já que o ato eterno não tem fim. Não há como retornar porque ele nunca acabou.
Independente dessa constatação, é esse querer que possibilita o retorno diante de todo fim. Mesmo que ele não dure para sempre, é o desejo pelo eterno que você tem hoje que lhe fará retornar amanhã. E são esses momentos que valem a pena, que selecionam o “vale a pena” de cada um de nós. E seria interessante pensarmos quantos dos momentos que vivemos, vivemos sem querer repeti-los uma única vez sequer.
Pode parecer uma ideia estática e sem vida escolher algo para sempre. Mas esse não é objetivo. O Eterno Retorno não é para sempre. É para escolher hoje o que você deseja para sempre. Não importa se você mudar amanhã. Até porque amanhã você terá aquilo que escolheu hoje e será uma nova pessoa. Você não pode assumir o desejo futuro hoje. Você só pode reconhecer o desejo de hoje para o futuro. A doutrina de Nietzche apesar de citar o futuro, o para sempre, é uma doutrina do presente, do agora, da escolha de hoje. Do hoje de hoje, do hoje que chegará amanhã, do hoje daqui dois meses quando você o viver.
É difícil pensar nessa escala, já que tomamos decisões que não temos intenção de reavalia-las. Ninguém se casa pensando na possibilidade de amanhã acordar com alguém de quem deseja separar-se. Mas é fato de que há grandes chances de que isso aconteça, já que a pessoa com quem você se casou ontem não é a mesma com quem você acordou hoje. A maior prova disso é que ontem essa pessoa não era casada. E isso muda muita coisa. O emprego que você conseguiu há 5 anos atrás pode te desagradar profundamente hoje. Afinal, você o escolheu quando ele não fazia parte de você e hoje a sensação de fazer parte dele já não é tão agradável e o retorno já não é mais desejado. Essa é a vida que não vale a pena ser vivida, porque você está vivendo a vida de alguém que você não é hoje.
“Se te apetece esforçar, esforça-te; se te apetece repousar, repousa; se te apetece fugir, fuja; se te apetece resistir, resista; mas saiba bem o que te apetece, e não recue ante nenhum pretexto, porque o universo se organizará para te dissuadir”.
Friedrich Nietzche
Talvez o mais difícil trabalho seja diagnosticar corretamente o que nos apetece, aquilo que queremos, para que vivamos aquilo que realmente queremos. Como psicólogo clínico, não é tão estranho a fantasia de amor do analisando pelo analista, entendido como realidade pessoal pelo analisando. Mas é fato que esse amor não pode ser possível, já que, além de antiético, ele não vai na direção da pessoa do analista, mas do trabalho do analista. O máximo que pode existir é amor pelo trabalho que ocorre na análise. Esse amor pode ser gratidão pela melhoria na qualidade de vida, amor pelo campo da psicologia, mas a pessoa do analista não é conhecida. Quase certo que uma relação íntima entre os dois — e por intimidade falo da convivência e compartilhamento do que há de mais profundo na personalidade de duas pessoas — resultaria numa das maiores decepções possíveis.
De igual maneira, não somente o diagnóstico ruim daquilo que se quer é a causa do mal estar, mas também a ignorância em assumir o erro e a submissão da própria vida ao desejo do outro. O sacrifício que termina em morte é um momento de dor, mas o eterno sacrifício é a escravidão da alma. É onde a eternidade se torna mais perceptível, pois a dor do presente é sempre presente. A atualização da infelicidade acontece minuto a minuto. Na dor, não há passado ou futuro, você é sempre presente. Você é eterno.
É quando você acha seu ponto de gravidade mais sólido que o presente vale a pena, que você não precisa se refugiar nos tempos da alma. O presente que vale a pena não busca refúgio no passado ou no futuro, ele vive o encontro. O amor fati faz sentido quando você percebe, dentre as coisas que passam por você, os encontros que valem a pena e até quando eles valem a pena. Eu pude perceber isso quando fiz minha primeira palestra na universidade. E dentre outras coisas, isso faz parte do meu centro de gravidade. Eu posso escolher não passar pelo massante e sem graça processo de elaborar slides para uma palestra, mas isso me impossibilitaria a alegria de ensinar. E hoje, eu ainda quero fazer isso infinitas vezes, retornar eternamente a isso. E você? O que quer fazer infinitas vezes?

Muito obrigado por compartilhar essas reflexões. Estou em análise, em busca do meu desejo, tentando não ser menos um “escravo à procura de um mestre” e mais consciente do meu Eros, de para onde quero retornar.
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