Durante eras o amor foi objeto de veneração, os relacionamentos eram o ápice da vida humana, o romantismo era um dom. Mas o amor exige esforço e trabalho. E hoje, talvez de forma transitória, é mais visível uma nova postura no que diz respeito aos relacionamentos e à intimidade. A ideia de que eu me basto, e os outros são apenas coadjuvantes dispensáveis da minha história.
É um mal social o mito da autossuficiência. Ele supõe um estado de superioridade, mas que se frustra a cada minuto. Nas relações de trabalho cada vez que seu chefe lhe chama a atenção ou você se vê ameaçado(a) de demissão; nas relações amorosas quando seu(ua) parceiro(a) não corresponde às suas expectativas, ou pela constante rejeição; no espaço público, onde é preciso dividir o espaço com outras pessoas. Inúmeras limitações se apresentam diante de nós. E não somos soberanos em quase nenhuma delas. A relação humana é inevitável e precisa ser desenvolvida, seja para a frustração inevitável, seja para a satisfação temporária do encontro.
Mas o mito da autossuficiência não permite isso. As efêmeras relações afetivas refletem a fragilidade para o trabalho interpessoal e o alto índice de fantasias sobre o que é um relacionamento. O autossuficiente vive no isolamento bradando glórias à sua grandeza e destilando ódio e desdém à inferioridade daqueles que ainda não perceberam seu brilho. Inflexível e inadaptável, crê que os outros são incapazes de contribuir com qualquer coisa e deviam ser coadjuvantes da sua história. Mais do que força, aquele que vive o mito da autossuficiência exala fragilidade. O frágil de perceber-se falho, imperfeito e dependente de algo alheio a si mesmo. O mito da autossuficiência nos priva da maior força de um ser humano. A que lhe possibilita ter fraquezas.