Chegamos à sexta parte do Curso de Ética. Aqui são abordadas as diferenças entre as crenças e reflexões gregas e cristãs. A aula, diferente das outras, tem um teor mais histórico. É possível ver com muita clareza a discrepância entre as concepções de felicidade dos gregos e dos cristãos pelas suas crenças e formas de interpretar o mundo. Para os que começaram hoje, podem encontrar aqui a parte 1, parte 2, parte 3, parte 4 e parte 5 .
Os gregos se preocupam com o conhecimento que organiza as coisas. O mundo é um caos que se organiza através da nossa contemplação e lhes confere sentido.
Os cristãos pensam diferente. Eles irão se interessar não pela ordem das coisas, mas pelo criador da ordem. E para fazer isso, irão buscá-lo através do diálogo.
Enquanto os gregos querem conhecer a formas como as coisas se ordenam através da contemplação; os cristão irão busca o ordenador das coisas através da conversação com o mesmo. E o que isso significa? Significa que a ordem das coisas é a voz de Deus. Sendo assim, há uma mensagem enviada por Deus para que você interprete. Daí vem a ideia de que doenças não são a consequência da má higiene, mas um castigo pelo seu comportamento.
A ética, do ponto de vista grego, se refere à boa vida, ao desabrochar das habilidades e a satisfação com sua existência. Para os cristãos, a ética não estará associada necessariamente à felicidade. Muito pelo contrário, pode lhe causar sofrimento por não realizar aquilo que gostaria. Enquanto os gregos querem viver bem, os cristãos querem se comportar bem. Mas quem irá modelar esse comportamento?
Pra mim, pode ser qualquer um. A sociedade, seus pais, a igreja, a legislação. Não importa. O que importa é esse conflito. Porque é claro que haverá um conflito. Se o conceito de ética é viver bem, em algum momento será necessário fazer algo desagradável à alguém. Esse conceito de ética busca alcançar seus objetivos e desabrochar suas habilidades. O que significa que ele não julga se você malhou com ou sem bomba. Mas se você cresceu aquilo que queria. Já o modelo cristão irá julgar a boa e má conduta.
Hoje, isso se traduz em fazer aquilo que queremos e aquilo que precisamos ou nos comprometemos a fazer. A vida se desdobra em relações que nos servem de alguma forma. Nos completam, nos satisfazem, nos relaxam, o que for. Porém, quando formamos nossos valores pessoais, é provável que alguns deles entrem em conflito com aquilo que queremos. Então, vivemos divididos em fazer aquilo que nos satisfaz ou fazer aquilo que achamos correto. E graças à esse cabo de guerra moral os consultórios de psicologia tem clientes.Não é tão fácil resolver esses conflitos, porque dos dois lados estão coisas diferentes, com o mesmo peso, mas não com o mesmo valor. O problema é que não definimos esses valores conscientemente. Sendo assim, eles se misturam e se manifestam cada um à sua maneira. Achamos a traição uma coisa abominável, até conhecermos uma pessoa atraente com quem vivemos um romance. Em seguida, descobrimos que somos o terceiro vértice de um triângulo. E somente aí começamos a manifestar os sintomas de culpa, mas não os reconhecemos porque estar com esse pessoa é prazeroso. A consciência ignora, o resto de você não. Afinal, o inconsciente não é muito chegado em ficar quieto.

Outro exemplo interessante é o marketing profissional atual. Vendemos aos quatro ventos noções de felicidade baseadas na realização e desabrochar de suas potencialidades. Mas o quanto isso é possível numa sociedade superlotada? Estamos formando indivíduos que não se sentem responsáveis a fazer qualquer coisa da vida enquanto trabalham nesse desabrochar interior. Não aceitam qualquer emprego, mesmo em condições precárias de qualificação. E, por outro lado, falamos com propriedade da facilidade de se largar um emprego e todas as responsabilidades adquiridas para correr atrás de um sonho, como se o único emprego que vale é aquele em que você se sente de férias o ano todo. Conflitamos a responsabilidade da conduta com a necessidade de ser feliz. E tudo em uma sociedade onde poucos podem se dar ao luxo de trilhar um caminho de cada vez. A maior parte das pessoas vai ter que estudar e trabalhar ao mesmo tempo. Sem falar naqueles que possuem filhos e não podem simplesmente abandonar os anos vividos e conquistas feitas para recomeçar do zero como se tudo fosse dar certo amanhã de manhã. Vendemos a felicidade e a responsabilidade como a cruz e a espada, quando deveríamos ensinar-lhes a transformar o presente em felicidade. E, se desejarem, construir um futuro mais adequado, mas sem demonizar o presente. Caso contrário, entramos na culpa de não sermos felizes com o que temos e podemos até ter raiva por aquilo que nos obriga a ficar onde estamos.
Os cristãos apoiarão seu pensamento em 3 pilares, que são Fé, Esperança e Amor. Nesta aula, somente a fé e a esperança são citadas. Mas a esperança foi a que mais me chamou atenção. Acontece que a base da esperança é a expectativa. É esperar que aconteça aquilo que você deseja que aconteça. E em decorrência disso, temos um grande mal do mundo moderno: a ansiedade. A ansiedade é aquela coisa incômoda que espera pelo futuro com grande energia preparada para ele. Pessoas que sofrem de ansiedade mal conseguem fazer qualquer coisa até acontecer aquilo que estão esperando que aconteça. E isso pode facilmente ser associado ao conceito de amor platônico, que é o desejo por aquilo que não possuo. Nunca foi tão atual o consumo desenfreado, até por questões de compensação pelos vazios interiores. O panorama geral de quem faz psicoterapia e o orçamento aperta é cortar a terapia, não aquela bolsa cara que eu tô querendo faz tempo. Num mundo cada vez mais competitivo e com expectativas cada vez mais absurdas de relacionamento, emprego, salário, carreira… o que vocês acham que acontece com a realidade? Decepção. Nada mais que decepção por sofrer, como manda o manual, esperando um paraíso que nunca lhe foi presenteado.
Não tenho intenção de dar um ponto final a esses pensamentos, mas deixar que cada um de vocês refleta sobre eles e formem sua própria síntese. Boa sorte, pessoal.