Essa sétima aula é um grande apanhado de várias coisas que são ditas em outras aulas. A abordagem é um pouco diferente, mas não acho que seria algo significativo se transformado em texto. Portanto, decidi usar o texto dessa semana para discutir ética do jeito que eu acho melhor. Mas para aqueles que tem interesse no curso, podem acessá-lo no Youtube.
Como eu já disse antes, a base da ética serão os valores pessoais que temos como norteadores de nosso comportamento. Eles irão determinar o valor das coisas, muitas vezes de forma inconsciente, definindo e pesando coisas conflitantes para que uma escolha seja feita em uma direção. Aqui já temos a resposta para todos os conflitos da humanidade. Valor. O motivo pelo qual não conseguimos entrar em um consenso sobre a questão do aborto, dos direitos civis de determinadas classes, é porque cada pessoa dá um valor pessoal e específico à isso. Para o psiquiatra suíço Carl G. Jung, o responsável por esse julgamento será uma das quatro funções psíquicas que ele denominou função sentimento. Ela julga através de relações de prazer/desprazer, agradável/desagradável, atração/repulsa, e assim monta nossa relação com os objetos ao nosso redor. A bancada evangélica, por exemplo, não tem condições de ser a favor da legalização do aborto porque o que está escrito na Bíblia para eles tem mais valor do que todos os dados sobre superpopulação, desigualdade social e mortalidade infantil. Comecemos então a relativizar.

Os japoneses, com seu conceito de honra, desenvolveram uma cultura com valores sólidos. Talvez sólidos demais. Durante o Período Edo, os samurais se tornaram um símbolo de todo o Japão e sua arte e simbolismo se tornaram culturalmente tão valiosos que sobreviveram até hoje com o Bushido. Os títulos do Japão feudal possuíam um grande peso para aquele que o detinha e toda sua família. Daí a prática do seppuku que consistia em um suicídio, mas que mantinha intacta a honra e o nome do samurai. Para eles, seu nome e sua reputação tinham mais valor do que a própria vida. Recomendo o filme 47 Ronin, que é baseado em uma história real do Japão e mostra como era a postura dos samurais e seu código de regras.
Todo encontro cultural, regional ou temporal, resulta em um contraste que deixa claro a diferença de valores. Religiosamente, temos a diferença entre o paganismo e o cristianismo. Se colocarmos em pauta sua maneira de se relacionar com a natureza de forma mais equilibrada, certamente o paganismo é mais agradável e biologicamente sustentável. Porém, se colocarmos o relacionamento humano e social em pauta, a noção de ética e virtude cristã, de agir “corretamente”, mesmo que se sofra por isso, é socialmente mais adequada, já que preconiza o bem estar do outro em harmonia com o seu.

O tempo não possui quebras ou vazios em sua estrutura. O que significa que todo período temporal se relaciona com o anterior, é sustentado por ele e inevitavelmente precisa lidar com sua influência. A consequência disso é que o mundo de 2016 não contém apenas os valores de 2016. Ele contém os valores de 90, que viu uma tv aberta com programas infantis durante a semana e que passou mais tempo da infância na rua do que na frente de um computador e viveu uma revolução da informática; os valores de 80 e 70, de quem saiu de uma ditadura militar, viu uma assembléia constituinte acontecer, uma economia duplamente morta renascer com o Plano Real e hoje está no meio do encontro de três gerações discutindo o futuro do país; os valores de 60 e 50, que, acho eu, devem sentir uma certa nostalgia hoje do que aconteceu em Abril de 64 pela nova — e, ao mesmo tempo, velha — instabilidade política pela qual passamos agora e talvez a mais assustada com os relacionamentos pouco definidos que vivemos hoje; e por aí vai.
Vivemos o encontro temporal de grupos de valores que se influenciam mutuamente e nos afetam. Seja com admiração ou desgosto. Alguns das gerações passadas olham o presente com brilho nos olhos, enquanto outros o consideram uma completa perversão daquilo que outrora foi bom. Da mesma forma, há na geração atual quem olhe o passado com desprezo e desvalor, mas também quem o veja com gratidão e admiração pelo que ele contém, criou, escreveu, fez. Tudo isso é reflexo da nossa forma de se relacionar com o mundo e com o que no mundo nos afetou e ganhou lugar dentro de nós. E assim nos formamos com a ética que temos hoje. Alguns mais flexíveis, outros menos. Alguns mais impositivos, outros mais relacionais. O que é bom, desde que saibamos em que cada uma dessas posturas é útil. Provavelmente o único real desafio de todo encontro de gerações é a relativização dos valores pessoais para a construção de um ambiente coletivo mais saudável. Onde avós, pais, filhos e netos são capazes de compreender o que há de valioso em que cada um.