Xangô costumava deitar-se em sua esteira
para deixar passar as horas
e descansar o corpo e o espírito.
Sua mãe Iemanjá por vezes fazia o mesmo em sua companhia
e ambos passavam horas e horas adormecidos lado a lado.
Certo dia Iemanjá sentiu correr por seu corpo um calor estranho.
Semtoa desejos pelo corpo do filho.
Uma sede sexual intensa tomou conta de Iemanjá.
Deitada, como estava,
foi se aproximando do filho sem nenhum pudor.
Ao sentir um corpo frenético encostado ao seu,
Xangô despertou de seu sono pesado
e espantou-se com o assédio da mãe,
a confissão do desejo de tê-lo como homem.
Desesperado, Xangô fugiu.
Subiu na copa de uma palmeira.
Seu coração palpitava, a indignação era grande.
Iemanjá correu atrás do filho
e, ao pé da almenira, declamou palavras de desejo.
As propostas de Iemanjá foram recusadas por Xangô,
mas Iemanjá não aceitou ser rejeitada.
Num ato histérico, Iemanjá jogou-se ao chão
e, com as mãos crispadas raspando o chão com as unhas, emitiu um gemido extasiante.
Xangô a escutou
e tentou esquecer-se da figura confusa da mãe.
Mas ele fora seduzido de algum modo.
Desceu da palmeira e abraçou-se a ela.
Então Iemanjá e Xangô amaram-se como homem e mulher.
PRANDI, Reginaldo. Mitologia dos orixás. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
Arte: Ubi Maya
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